Uma Carta, um Conto e uma Biblioteca
Hoje serei
um pouco diferente. Talvez, não sei, tu penses assim. Mente não dá para
controlar, pensamento que há, de dentro para fora da gente, discorrer sobre o
que se sente. Quando é assim, caminho primeiro, busco as sensações de um jeito,
para melhor clarear as ideias para mim e para você. Pode crer, é verdade o que
eu digo. É quase literal o que eu escrevo.
Sendo desse
modo, fui atrás do propósito de entender um pouco a história de mim. Sem
terapias agendadas, nada contra o mundo da psichê, mas fui me refugiar
em amigos antigos, no que mais fazemos quando estamos nesse estado. Andando e
pensando, fui atropelando sentimentos, em passos acelerados, batidas do ritmo
do pulsador, aquele que te deixa em pé e derruba sem querer. É um sufoco, sei.
Por isso tive de ir na amizade. Lá a saudade pode ser dita sem dizer.
O amigo, ou
melhor, a amiga que fui buscar ver, já havia um tempo que não encontrava. Ela
ficou pra lá de ciumenta, dou todo o crédito, pois, beleza e formosura nunca vi
antes numa amiga assim. Os olhos caem nela, línguas silenciam, e todos reverenciam
a majestade, poetas deixados pra escanteio. Eu amo essa Menina, que jamais
envelhece, diante da vastidão que é sua extensão de segredos, fonte de
juventude. Ela não me deixa em sossego. Mas fui lá passear, na Biblioteca,
minha amada de muitas caminhadas, de muitas histórias minhas. Fui lá ver o que
eu tinha.
Chegando
na casa dessa senhora, Menina como chamo, digo que respeito tanto, avexado de
dizer pra ela se posso namora-la. Vejo na minha insanidade, uma verdade que
denota, como amo sua prosa, seção de Camões na esquina do Sofrimento
do Jovem Werther. Ali já dei um suspiro, Biblioteca meu amor platônico,
para sempre adolescente, diante de tantos mistérios que há de se saber por ali,
páginas escondidas. Razão e Sensibilidade, camarada, no materialismo das
paixões, Pascal coloca que o coração sabe e desconhece isso. Fiquei
aflito e, num respiro, ao Morro dos Ventos Uivantes fui. Mais que Miseráveis
fiquei. Porém, a Biblioteca continuava linda.
Uma Menina
no Diário da Paixão...
Sentei-me
solitário e abri meu caderno. Hoje escreveria, não sei o quê e nem para quem. Contudo,
a Biblioteca sabia de tudo, das minhas andanças desde os dezenove anos até
agora na idade da inquietação. Rabisquei algumas letras, frases inteiras, e me
pus a redigir uma carta. Um rubor surgiu nas maçãs do meu rosto, e eu consegui
sentir o gosto do beijo que não tive: era adolescente de novo. Meu Deus, Aquino
grita lá de trás, Jung não perdoa, Sócrates quase morre de novo
na cicuta ao ver isso em mim. Mas Biblioteca entendia, a Menina que queria,
afagar comigo sem me tocar. Mas tocou. Veio do sobrenatural, uma queda proposital,
surgindo na minha frente, poesia perigosa, a Lira dos Vinte Anos. Com Álvarez
de Azevedo terminei a carta. E deixei apenas ao destinatário o endereço.
Não consegui pôr o começo. Paguei caro o preço.
Uma
lágrima nesse momento ousou cair. E eu me pus a sorrir os sorrisos dos
apaixonados, que sentem na carne o sabor salgado da saudade. Lá vem Dom
Quixote, em busca dos Dragões, derrotar na jornada para, desse jeito, ser o
herói de alguém. Persuasão romântica melhor não há, Don’t Cry para lembrar,
melodia que não me deixa esquecer: ah, Biblioteca, você tinha que trazer esse ponto?
Aquiesci que sim, contrariar Biblioteca, a Menina, jamais, e escrevi um conto. Kundera
ficou irresistível, insustentável leveza em seu ser, em seus Risíveis Amores,
a tentativa de manter a conquista do amor como uma chance de vida a viver. Manter-se
aquecido pra valer. Biblioteca sorriu, até arriscou a ensaiar que me amava, mas
recuou de difícil, travessia de Grande Sertão, Veredas: jogou ela Dostoiévski
na mesa. Crime e Castigo não era, a Biblioteca, minha amada Menina
disse. O livro era Noites Brancas, amor e solidão para mim.
O conto
avançava e minha respiração não mais aguentava em continuar ali pensando no que
eu fui. Biblioteca era imensa, um continente, e eu uma mísera ilha em meio a
tanta Utopia. Quem mandou mapear as letras dela, pensei? Em retrospectiva,
Machado avisa, o corte seria melhor se direto fosse. Ameacei levantar,
desistir da gramática, da poesia, da fala apaixonada, e ir para algo mais
sisudo, cinza, frio, como o Direito. Biblioteca soltou uma gargalhada, ressoou
todo o ambiente com sua voz rouca musical, dizendo que Bobbio e Ihering
não era literatura. Era amargura. Assustei com aquilo e ela não percebeu que
uma personagem me deu, além de um conselho: “pelo direito pode ir, mas a
justiça jamais virá, nem tardia será.” Fechei o conto com Gabriel Garcia
Marquez na mão, Biblioteca na sedução, e eu em mais Cem Anos de Solidão.
Carta não
resolveu, o conto não deu, terapia era o que podia e esperava. Desliguei a
música, nem Guns N’ Roses ou Tracy Chapman poderiam me ajudar, e
a amiga Biblioteca mais me deixou confuso que acertado. Sai de lá em cacos,
fragmentos de mim, que um dia dei a ela, quando pela primeira vez, busquei nas
mãos da Menina, Orgulho e Preconceito. Tocar seus dedos meu deu medo e
felicidade. Mas a tempestade chegou, o inverno nunca foi embora, primavera que eu
aguardava na esperança dela ser meu verão. Ah, isso é paixão, itabirano me
fala, na prosa e na raça, mineiro que se valha, de dizer pra mim que melhor é
sorrir, pois, Ainda Estou Aqui. Emponderei-me mais que um general,
qualquer feminista melhor que Beauvoir, e disse a Biblioteca, a Menina,
que não mais importava, pois amar não é posse, é entrega. Tirei coragem de onde
não havia, pus na fala tudo o que sentia, sangue que movimentou o corpo para
dizer o quanto eu queria vê-la comigo em um Sonho de uma Noite de Verão,
saboreando um macaron. Deixei o caderno com ela, a carta e o conto que
escrevi, e nenhuma querela, apenas Amor para Recordar. Biblioteca sorriu,
a Menina de novo surgiu, e eu me desencorajei de novo, desmobilizando minhas tropas,
descumprindo o manual da Arte da Guerra, deixando de ser O Príncipe,
não sendo temido e nem amado. Fui menino de novo. Biblioteca veio até a mim,
com todas suas histórias e livros, enfim, e disse assim, ao pé do meu ouvido,
algo que jamais esqueci:
“...Bobinho,
carta e conto não te fez desse jeito. Tu és poeta porque você me amou sem medo...”


Este escritor é puro sentimento! Amo seus textos!
ResponderExcluirLindo demais meu amigo!😃Parabéns! 👏👏
ResponderExcluirMuito lindo amigo! Você tem o dom da escrita e coloca entimentos. Parabéns!
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