O botão de ligar a luz
Esse quarto tá escuro, digo pro Potchucko, filho meu que corre no corredor. E logo vem a dor de tentar alcançar o tempo; lamparina ilumina a cervical que me sustenta. Dobradiça que é uma tormenta, obscura sensação de olhar para trás e ver o menino correndo. Tá escuro aqui, rebento! Um analgésico, por favor.
Não entendi a ocasião, mas ela veio rápido alumiar: o quarto estava sem luz. Coloquei os dedos no botão, fiz o movimento de cima a baixo, e nada de conexão, nada de sair uma faísca. Potchucko talvez quisesse apenas me avisar. Apertou o botão e acendeu um problema que eu ainda não enxergava. Mostrou e saiu. E eu percebi o desafio que seria.
Chave de fenda e manual, abri a caixa onde havia o comando de conectar. Fios pequenos lá dentro, poeira e teia, muita coisa perdida, fora o que já se foi. Os cabos estavam enrijecidos, inflexíveis e, quando é assim, é difícil conduzir. Apertei um pouco o plástico, e nada de luz surgir. Choque elétrico veio. Sinal de que eu precisava dar um jeito.
Deixei Potchucko em casa com Mamãe e fui no afã de comprar o negócio de ligar. No trajeto de ida, pensei como a conexão liga vidas, e não só luz no quarto escuro. Esse negócio de olhar com detalhe amplia a objetiva da retina. A brincadeira de Potchucko me fez ver a lâmpada que não ligava. Pra haver brilho, a energia deve vir pelos fios. E, se eles estão cortados, quebrados, esquecidos, claridade não há de haver. É o que eu comecei a entender.
Eletricidade também é coisa da vida.
Talvez. Não fui um grande aluno de física. Mas o casal que encontrei pelo caminho também não parecia ser grande apreciador de Isaac Newton. Eles discutiam porque o carro não andava. A mulher explicava que a ignição do veículo falhava e que a revisão estava atrasada havia mais de seis meses, e ele não ouvia isso. O homem disse que não tinha como lembrar, porque vive apenas no esquecer do dia que se foi, diante de tanta rotina por cumprir. Ela parecia falar mandarim, e ele só escutava alemão. Os condutores pareciam desconectados. Não tinha como dar partida no carro sem que os polos da bateria estivessem ajustados.
Quarto escuro, Potchucão! Saí dali para não ser eletrocutado.
Já em outro espaço, longe de casa, avistei um jovem conversando consigo mesmo. Lamentava o dia de hoje, o trabalho que possuía, questionando que não tinha a mínima vocação para aquilo. Sentia-se aprisionado, sem tempo para si mesmo, triturando os ponteiros do relógio, fazendo paçoca disso. Fiquei olhando aquilo: ele sentado no chão da calçada, vendo o dia passar, claridade lá fora que não penetrava nele. Ele batia suas mãos no peito, como se marteladas fossem, tentando acionar algo apagado. A lâmpada de dentro não acendia o quarto, outra fiação arrebentada. Cabo inflexível não conduz energia. Havia botão que clareasse a saída? Potchucko era só correria.
E eu vendo a vida desligada.
Mas isso não foi piada. Não sou bom nisso; logo aviso: se rir, é porque me viu bobo. É um sufoco, eu sei, vida que parece devagar quando a gente deseja e apressada quando o desejo cai no colo. Não tem botão de luz para esse negócio de ligar e desligar quando um e outro é, ou não, conveniente. Mas parece que no mundo só tem gente cortando fios.
Que curto-circuito esquisito!
Cheguei então na casa elétrica e pedi aquilo que vim buscar com pressa. Alguns metros de cabo, interruptor novo de plástico e dois tipos de lâmpadas: uma para teste e outra para ficar. A mulher que me atendeu arrumou tudo de modo inteiro e não sobreveio de me perguntar para que tudo aquilo. Disse que meu quarto estava sem luz e foi minha criança que apontou essa escuridão. Ela se emocionou, então, falando que meu menino era esperto de mostrar o que faltava no interior de minha casa. Deixou o interruptor no balcão e os outros itens por mim solicitados e mostrou seu barrigão: estava de 36 semanas. A mulher disse que estava quase na hora, ligando os faróis de seus olhos, a maternidade que chegava para ela no corte do cordão umbilical.
A conexão que conduz a eletricidade de toda mãe para sempre.
Contente fiquei de ver essa lâmpada acesa, luz do quarto de dentro ligada. Voltei-me para a caminhada de regresso, pronto para a engenharia reversa, de deixar o cômodo de casa funcionando.
Mas um fio dentro de mim resolveu reconectar os lampiões de minhas memórias, esses vaga-lumes da meia-noite. Tive saudade da criança que fui, do jovem que sonhou, do adulto que eles me entregaram, aqueles abajures gentis. Cada fio desencapado no emaranhado da minha caixa de força elétrica me pôs a ver tudo o que fui antes, ligando e desligando botões de luz ao passar por tantos quartos visitados. E água é condutor elétrico, corrente de energia que passa na espinha e atinge o motor da gente.
Meu lampião de querosene voltou a esquentar e brilhou.
E já estava para mais de envolvido quando, num respiro, me olhei no reflexo do vidro. Aproximei-me mais, olhei de perto e liguei a luz do celular para ver o meu rosto de novo. Às vezes vivemos tão apagados que nos assustamos ao nos ver na luz de nós. É muito fio enrijecido que guardamos e esquecemos de parar para trocar alguns, para a energia acontecer.
Até um dia um Potchucko correr na escuridão de nossa casa...
E o botão da luz voltar a acender.
Thoughts \\ Original by Jacob's Piano - trilha sonora de O botão de ligar a luz



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