Os rios dela
Sabe
que eu gosto das águas. Sou canceriano daqueles que choram lentamente até em
propaganda de chocolate. Isso em todas as idades, vontades e nas ocasiões
inapropriadas em que a felicidade é oceano. Não me engano. Sou assim.
Mas
quem é também descobri deveras depois. O cinza ocupava meu horizonte, aurora
que não via. Havia uma alegria contida, é verdade, verdade de expediente,
gaveta e planner para organizar, dança que ela movimenta no preparo. É um fato.
Abri os olhos devagar por causa do ofício.
Suplício?
Aqui
em Minas gostamos de apreciar.
Pão
de queijo vem nessa história, guloseima do convite, ameneirar quem do Rio Pardo
vem. Santa Cruz que nos ajude, não sei como se fala salarês, idioma que
descobri no dicionário do tempo. É um argumento? Nem desafio a ela apresentar.
Não vou dizer.
Ela
vai chorar.
O
rio será daqui a pouco. Conto depois.
Na
lentidão de quem vai pensando a imensidão dessa vida, eu vejo as sapatilhas da
bailarina. Ah, Jesus, ela vai à Catedral orar durante a semana, porque comunhão
para ela é todo dia. Mãe no café da manhã, estica os braços de cabeça para
baixo antes do meio-dia, porque à tarde o processo continua. Que loucura, digo
como mineiro, essa garota precisa de sossego. É doutora, moço, atreve não. Tá
bom, um churros pra ocê então.
Adocicar
o sal da vida é bom pra amenizar.
Entreguei
sem ela esperar.
E
a dança dela continua, jazz ou jaz, não tem descanso. Ainda vejo tanto cardeal
vir à sacristia dela perguntar como funciona a liturgia. Caboclo bispo não leu
a Bíblia? No rito dela, freira ensina padre a rezar a missa. Até o Papa já veio
pedir direito. Madre Teresa sorri. E eu tento me enfiar no tabernáculo para não
rir.
Será
que um quadro da Madona cairia bem?
Eu
que não vou perguntar. Amém.
O
Rio Pardo vira Doce nesse momento, montanha ao lado dela protege. É tanta
animação que vejo em seu andar que seus passos parecem rock progressivo, três
guitarras para cumprir seus acordes. Confesso, eu tenho sorte. Não é todo dia
que se vê vida.
E
os rios dela são mais que filosofia.
Mas
nem tudo no movimento é equilíbrio. Às vezes, a banda cai. Sem música não tem
dança? Para mim, nem com orquestra eu danço, não sou régua a medir esse
compasso. Mas para Rio Pardo, que Doce é, os passos continuam ainda que sem
canção. Bailarina é movimento, e o silêncio de fora é gritaria por dentro,
poesia criada para os dias não deixarem de ser apresentação. O salarês, agora
eu com quase um certificado pelas horas de curso, me diz: você brilhou.
E
a dança dela jamais se apagou.
É
tanta perna para muito chão — solo, corrijo, porque aprendi essa lição e não
vou denunciar. É minha alegação final. Mas ela me lê também. Gentileza deve ser
um rio em que ela mergulha, algum jardineiro em uma aurora deve ter lhe passado
os caminhos dessa loja. Lojas.
A
minha é azul.
A
dela é lilás.
Loja
de flores a proteger.
E,
quase ao fim do jogo, tabuleiro de viver, cartas ela distribui e não é fã de
acumulá-las. Seu inventário é de pessoas, café na xícara antes de trabalhar,
assunto na medida. Nada esfria e a pipoca pula. Que fantasia é essa a que eu
assisto? Nárnia, Pasárgada ou Promotoria? Não sei responder e não vou arriscar.
Mineiro é de observar, a dança é dela, a sempre continuar, e a sorte é toda
minha. Porque não é todo dia que se conta essa história. Não é todo dia que
vemos como é uma bailarina. Não é todo dia que assistimos ao extraordinário.
Não é todo dia que vemos o Rio Doce finalmente.
Encontrar
com o Rio Pardo.
Vilarejo, por Tribalistas (Marisa Monte), trilha sonora de Os rios dela.



Belíssimo!🥰
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