Comigo e contigo de novo
As palavras, ah, as palavras, senhoras das letras, mãe das poesias, namoradas das canções, sensações que deitam nossos ouvidos ao fonema certo. Conectada a uma, vogal/consoante, um pouco adiante, dita da forma correta, gramaticalmente ou não, faz a imensidão do coração reinar. Vibrar. Ditongo crescente na vida, hiato jamais não. Foi a correção.
Andando por aí, dei bom dia sem querer. A intenção era comunicar, sem palavras adequadas para falar, disse então do dia para começar. Bom para mim, para variar, ela se encantou de ouvir e deu seu recíproco sonoro, no que eu mais gosto, ouvir as palavras de alguém assim. Deleite são as ondas sonoras, a acústica afinada, no que nada mais basta ser, ouvir o bem-dizer, sílaba que gruda na memória, saudade que mora, eu querendo viver isso mais depressa que interjeição. É o meu jeito, Senhor Brochurão. Reclama não!
Vejo em seguida um outodoor gigante, palavras escritas, ofuscantes, de alguém que deixou a hora passar e o diálogo não produzir. Isso não é de rir, mas de chorar, pois, antes ficar e ouvir, do que partir e após dizer. No entanto, deu para interpretar o pranto, de cada letra no papel imenso, do sofrimento íntimo estampado na avenida. E todos leram a ira do sentimento, que nem mesmo a chuva se atreveu a desmanchar o tormento do que ali estava escrito. Eu respeito isso e imagino que quem escreveu o quadro desejaria voltar no tempo para ter dito. Arrisco a denotar que não queria apenas isso.
Ah, valha-me meu Deus, a cidade é grande e a gente se perde pequeno. É tanta coisa para fazer, nenhuma importante, é verdade, mas nenhuma idade acusa a gente de fazer a coisa certa, ditado que deveria ser aprendido na infância. Num jardim de praça, me vejo de frente a ela, chorando rios de aquarela, no seu silêncio que diz muito. Diz tudo e fiquei a ouvir, cada letra não pronunciada, no que dava para sentir como se tratava aquilo que repousava ali, no coração de Mulher, agora transliterada em Menina. Não ousei aproximar, mas fiquei a admirar, a etimologia das lágrimas, mais definidora que alfabeto grego, semântica da emoção. Dicionário sabe disso, e sei bem esse suplício, ofertando desse modo a linguagem do meu olhar na direção dela, indo embora depois. Conforto poético, pois. Idiomas traduzidos foi o que transcrevi depois.
Pouco mais adiante, na televisão de um bar que logo encontrei na caminhada, um sujeito oculto disse que só haveria no mundo duas letras. Não reconheci esse tipo de linguagem, com que apenas dois códigos são capazes de transmitir o que a humanidade ainda não compreendeu. Sei bem das letras representarem aquilo que temos a transmitir, sempre de dentro para fora, no mais autêntico que podemos ser. Nem A e nem O, é capaz de gerar o Dó, de qualquer harmonia que se faça na sequência e se toque. Tive paciência, ouvi e escutei direito, mas não teve jeito, o caderno de caligrafia do sujeito era incompleto. Os dois códigos jamais definiriam um gênero, porém, foi o suficiente para um momento, um grito se ouvir perto, ressoando distante. Letras o bastante para avisar, pensei. Quem escuta, sabe dizer, anotei.
E continuei andando e pensando: essa coisa de escrever mexe com a gente. Fico aqui tentando conectar a mim e o mundo, as letras a combinarem o sentimento a discorrer, frases que façam sentido para mim e para você. Eu não te vejo, mas você me vê, aqui ao ler, palavras que nos aproximam, indo um a um, na oração insubordinada, reger melhor a vida, com mais reticências e sem ponto final. Fico imaginando do outro lado, como deve ser o fato de a sensação percorrer a pele do corpo e adentrar a alma, lendo o texto e interpretando no particular contexto. Uns me diriam que sou bruxo, que possuo uma loja mística/esotérica, mas não tenho ideia, além de mim e meus sentimentos, e um dicionário na internet. Ah, que peste sô, revelei o segredo, o que faço sem medo, expressar palavras na concordância verbal e nominal daquilo que se sente. Sei, fui atrevido agora. Conjuguei o verbo transitivo direto e fui intransitivo. Intransigente. Se eu disser da conjunção será por aspas, metáforas, por favor, que se faça, pois, recorro a metonímia agora, a parte pelo todo, de toda a arte que me socorra. Simbolismo de novo é minha licença poética, poesia que escrevo para ler sem pressa, a não ter mais nada, a não ter querela. Disse para ti que me lê e para ela, as Letras, minha amiga, sempre em festa.
Ah, é assim que fico, namorando as palavras no presente, com particípio passado, afastando futuros imperfeitos, tempo verbal que não aprecio. Eu digo agora, Tu deves dizer imediatamente, Ele e Ela simplesmente, Nós sem perdermos a conjugação, Vós a ecoar a razão, Eles e Elas a desenvolver a redação em início, meio e felicidade, concluindo bem. Dissertação que deixo na prosa, dando volta no ditado, conto que elaboro, no verso pequeno cheio de significados conotativos e denotativos, lição da vida que nos ensina a todo instante a como pontuar dias difíceis na sala de aula do mundo. Não se pode perder a pronúncia e nem a deixa de dizer, o que vem da gente dicionarizado para alguém. Palavra criada vem de dentro e precisa de ida, objeto direto de acolhida, predicado que adjetiva a oração, regências coordenadas substantivamente. Para passar a mensagem é preciso acertar a linguagem, entendi. Para dizer o que se sente, é preciso calibrar a coragem, compreendi.
Tudo ganha significado no momento em que se diz, mesmo sem dizer. Não há gramática no mundo capaz de dar conta de tanta prolixidade do sentimento, tormento daqueles que gostam de conceituar tudo. Porém, eu sou astuto, mineiro pra cê vê, cume que é se diz aqui, direto pra moça compreender, namoradeira de janela, amada no coração. Cê besta, sô, quem não diria, o melhor da vida, abraço é um lugar, amor é namorar, derreter, sem nenhum dia deixar de dizer, amo a ti e pão de queijo, dizendo de diversas maneiras o nobre sentimento. Destino no vento? Nada. Beijo e casamento, criança e sustento, vida com menos sofrimento, letras a narrar a crônica, discorrendo palavras e dias, vivência que se arrepia, que se fia e afia quando a palavra certa é dita. Melhor letra é aquela que fica, Moço, Moça! Melhor palavra é aquela que nos convida, nos anima a constante, afetuosamente e continuamente a ficar sempre a ouvir as palavras suas e a do outro, no diálogo que possui o escopo de possibilitar uma nova esperança e uma nova vida...
De A a Z comigo e contigo de novo...
HALLELUJAH, interpretada por Dino Fonseca, trilha sonora de Mais um Pouco.



Texto maravilhoso! Parafraseando letras, palavras, significados, compreensão, conexão Conversas. Amei! Parabéns ❤️ ❤️
ResponderExcluirDe A a Z, uma nova esperança uma nova vida🥰 Espetacular👏👏
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