Anunciação


 

Era dia corrido. Nem suspiro podia, caía, é verdade, no tempo que leva a gente. Oxente, ouviria, na caminhada que ia fazer pra receber Mamãe que de viagem chegava. Família pediu, Potchucko ouviu Papai dizer que buscaria a Vovó para ele ver. A Belo Horizonte fui pra você entender.

Mochila nas costas, tatuagem de professor, bagagem que eu levaria a compreender chegadas e partidas. Modo racional ligado não, paixão que me move, filosofia cartada e guardada, na mente e no coração. Fiquei a observar a multidão, no trem que levava, pessoas a chegar e partir de outro lugar. É trem o trem mesmo sô, não figura de linguagem, o transporte a me levar até Beagá. O tanto de trem que teria, daqui até algum clube da esquina, vou discorrer tudo pra vocês, esperando tocar a alma com letras e fonemas. Pão-de-queijo pra viagem, Moça Bonita! Sou Mineiro, e amo esse jeito.

Na capital dos belos horizontes, teria de ir logo ali em Confins esperar o fim de viagem de Mamãe que vinha de fora, dos “estêitis”. Paisagens de edifícios grafitados, cores de trabalhadores orquestrados em meio à sinfonia de buzinas e galos, preto e branco da minha vida. Ficaria algumas horas na cidade, no aeroporto que ficava, recebendo partidas e chegadas, com muitos desvios de malas, vidas e destinos. Eu estava sozinho, um livro pra ler no meu íntimo, morada de sonhos e recordações. Tanto um como o outro chegam e vão embora, como aviões a decolar, fazendo estrondo na subida e na aterrissagem. Sonhos silenciosos de trovões, recordações estridentes de lembranças quietas. Eu não me aquieto. Reflexão de embarque, alma que transporta a gente.

Sentei-me aconchegado na cadeira de plástico, metal de braço, frio do ar condicionado. A voz do anúncio tinha uma lírica que agradava, no que eu pensava, de onde ela vinha. Chegou um dia na vida e veio pra cá na sina de acompanhar idas e vindas, narrando sinais para ninguém se perder. Eu não via o rosto, da moça que falava no alto-falante do aeroporto, mas não espantei quando ela disse o que realmente queria. “Senhoras e senhores passageiros com destino à Alegria, não esqueçam o cartão de embarque, portão número 12, embarque imediato. Preferenciais façam uma fileira à esquerda, enquanto os outros esperem o chamado à direita. Além disso anuncio: o sim de que eu amava chegou. Vocês podem ir, pois, agora, é que meu coração ficou. Paralisada estou porque meu amor, enfim, chegou.

Escutei aquilo e fiquei quentinho por dentro, com a felicidade contida da dona da voz do aeroporto que se regozijou ao revelar que amou. Não houve partida do coração, mas chegada rápida de avião, decolagem nas nuvens do sutil sentimento. E eu não me aguento. Vou esperar Mamãe enquanto vejo o movimento.

E não demorou tanto a movimentação agitar, em uma escala de grupo de adolescentes a chegar, vindo de longe, gente, para participar de olimpíadas de poesia na capital. A professora de literatura ia na frente, tocando a galera e ukulele, e meninos e meninas faziam, sem querer, versos não escritos nos olhares partidos e chegados, sinais que captei. Uma garota alva, de cabelos pretos longos além da alça, tinha uma boina vermelha guardada e um fone de ouvido no qual escutava grunge e hard rock, música que marcou época e um menino que a acompanhava, perdido nas estrofes da adolescente musical. Ela percebeu o carinho, e anunciou o ritmo, ao verso pronunciado por ela e chegado aos ouvidos do coração dele. Anunciação feita, canção tocada, festa aguardada, poema que vem. A melhor partida que tem é quando há a chegada de alguém. Vida que agradece, meu bem.

Horas que se avançavam, chegada de Mamãe que se aproximava, e algo que vi me deu uma reminiscência. Na paciência de esperar, fiquei a observar, um casal caminhando lento ao cuidado tenro, em razão da circunferência da mulher que carregava uma viagem. Ali dentro, no centro do mistério, o homem e a mulher ficaram por perto a ver toda a trajetória de chegada à vida. Eles riam sem motivo, mas com muito motivo, lembrando os sinais da anunciação daquilo que invadiria seus destinos para sempre. Houve recordações do momento em que existiram paixões, no anúncio de cada um recíproco, um bem-querer que garantiu o transporte de um lugar desconhecido para um território abrigo, o afetuoso colo da maternidade. Aí eu tive saudade, de ser viajante nesse transporte lindo, pensando que já fui esperado e vindo (bem-vindo) e hoje espero quem me esperou. Chegadas e partidas, eu tentando entender a vida, enquanto vejo gente por todo lado aguardando sinais e anunciações, painel luminoso do aeroporto que muda a todo instante. Não houve refrigerante para isso, uma lágrima desceu sem segredo, e virei para o lado para ver por dentro esse meu jeito.  Potchucko me espere, pois, levarei Vovó para o nosso aconchego.

Diante de tudo aquilo, eu por dentro vivendo isso, o silêncio de repente ocupou as vozes do aeroporto. Passadas leves em murmúrio úmido, abraços correntes levando gentes, família que parecia receber a chegada da partida de alguém. O transporte madeirado surgiu, junto à tempestade das estações dos sentimentos presentes, e toda aquela universalidade ali não foi ausente, unindo-se implicitamente naquilo que ninguém quer aguardar: a decolagem para um destino que não se sabe qual. Fiquei desse modo, afinal, pensando no que seria, a palavra adequada a se dizer, a trazer para o coração deles a centelha que não se apaga. Ensaiei levantar, sair da cadeira a qual eu me sentava, contudo, fui impedido no segundo do tempo por uma voz que sussurrou no meu ouvido: “espere!” Congelei-me assim, arrepiei o pelo da alma, e senti mais vivo sem nenhum sentido para explicar. Nesse momento, no que eu mais vi tormento, uma criança correu por toda a quadra do aeroporto, gritando por seus pais e dizendo: “vocês não podem ir sem mim!” E essa foi a charada, a palavra digna de ingressar na morada, pois não há partida sem chegada, destino sem ida, viagem sem despedida e trajetórias desacompanhadas. Sempre levamos alguém, no início, na volta, na jornada, na travessia. E isso se chama saudade, uma viagem jamais sozinha e que nunca termina.

O silêncio se foi, partiu e foi embora, e a gritaria íntima ficaria por algum tempo ali. Mas logo me apercebi, da imagem surgindo diante de mim, Mamãe que regressava da viagem que fazia. Ao abraço dela fui, chegada esperada por mim, e perguntei como tudo foi, sem deixar pra depois. Ela sorriu, me viu assim diferente, e me pôs na mão um pingente, dente meu da infância. E repousando meus olhos ali, eu entendi que essa idade partiu também. Contudo, ainda fiquei sorridente, com a dentição que tinha presente, anunciação de outras idades a viver, novas viagens a realizar, chegadas a ser. Adulto fiquei, dentes alinhados, vida no compasso, tremedeira perdida. Mas não foi essa a dica, Mamãe no olhar, me pôs a colocar, um cordão com o dente da emoção. Olhei para aquilo, fiquei sem saber sobre isso, e ela, em sua sabedoria desde o início, pôs-se gentilmente a me dizer. A anunciar:

 

 Não haverá partida se não se deixar ir embora de si. Destino da gente é dentro da gente. Chegadas e partidas de ser feliz”.

Anunciação, por Alceu Valença - trilha sonora de Anunciação.

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