A loja de música


 

Ah, eu lembrei do meu pai. Quem nunca lembrou, não é? Jeito de dizer que quem a gente ama nunca se vai, mas um ai se dá no deitar do chão das lembranças. Piso da infância que corremos por todo o sempre, no mais tarde que não é quente, inverno sorrateiro de um calor remoto faz. Abraço que eu queria mais, pingo salgado no papel que jaz.

Mas não quero que chores, por favor, anote, o que tenho para lhe dizer. Sim, não é pra sofrer, porém, pra lembrar como é bom avivar o que bombeia a gente. Bambeia sorridente. Sou na vida aquilo que diz adulto ser, contudo, digo pra valer, que isso não sei como é. Pego bombom escondido, dou um arrepio quando ouço um grito e logo corro quando monstros surgem ditando como a vida deve ser. Pra ela, menino sempre vou ser, Aurora vai devagar, porque não quero a imagem dela esmaecer. Poesia isso há de ser. Viver...

Papai ensinou isso pra mim de montão, que amor é palavra dita no escrutínio do coração, vendo o que eu seria no destino da correria dos dias. Não avisou de pronto, mas colocou o ponto de exclamação aos sentimentos do filho que ele via. Ele sentia. Surpreso ele não ficou, fruto não cai longe da árvore, coração dele maior que busão de lotação. Não tenho dicionário pra isso não. Só saudade que perto disso diz muito, então. Ah, moça, quero colo rapidão!

E digo assim, pra anotar, enfim, que pedi presente uma vez ao meu pai, ocasião de ser, queria cantar pra ver. Ele olhou pra mim, querendo dizer com cuidado, que aquilo eu não sabia, melhor procurar outra coisa pra ser. No entanto, insisti, naquele momento e em outros tantos, a teimosia dos ousados, para a ele persuadir a compra do que eu queria, um instrumento musical. Espantado ele ficou, afinal, pois, eu não sabia tocar nem galinha pra correr, menos ainda um sopro ou corda para vibrar e música ouvir. Relutante por instantes ficou, eu, no meu afã, restou-me a usar a melancolia dos apaixonados para ele entender: “amando alguém ele deve estar”, escreveu seus olhos. Com meu olhar suplicante, eu e papai se pôs andantes e fomos para a loja de música comprar o instrumento que precisava, para ela, assim, encantar. A chance de uma nota ser acorde me pus a sonhar, Dom Quixote danado que eu era. Sou, deveras!

Empolgado nas emoções juvenis, alguém assim um dia me descreveu, papai me devolveu o ensinamento que me vestiu. Sem confessar o que foi ou o que era, mas por mim, bem depois notado, entendi que ele também um dia quis cantar. A percepção do adolescente não captou naquele átimo, na loja de música, que papai também desejou impressionar alguém. Em casa, lembrei na memória caprichosa, como era harmoniosa as músicas que ele escolhia pra escutar, no seu silêncio manso, o horizonte da janela a ver os olhos dele mergulhado em si mesmo. A esmo fiquei com isso. E papai me conduziu, sozinho. Levou a si e seu filho.

Dentro da loja já estávamos, e música se ouvia de todos os lados. Noturnas de Chopin, Quatro Estações de Vivaldi e Legião, um bando de garotos no chão assobiando cantiga antiga. Garota underground havia, no roupar apertado ela reluzia, o metal do som ao tilintar de seu coração de menina. Ah, ela era linda, a música, a vida, a poesia de encontrar melodia em todo espaço, paraíso de Orfeu, meu Deus, cante comigo o versículo da redenção. Eu a amava de paixão e papai sabia disso. Impressionar era necessário. Impressionista era a minha saída. Fiquei na sina. Toque Raul e não Oficina, era o que eu prescrevia.

Papai logo apontou para gaita como o instrumento de solidão. Disse que aquilo queria não, mas assuntar pra entender exigi dele versar. Meu pai sorriu como no alargar da sanfona, e me pôs a tona de compreender que cada instrumento é uma persona. Uma psicologia da música se aventava, na sabedoria de meu pai a data de um tempo que compreendi por inteiro o sentimento. Antes da música vem o tormento, a ideia na lousa branca de um preencher sem esquecimento. Beethoven e Axl Rose sabiam disso. Gustavo Lima, não sei dizer. Gonzaguinha e Belchior choram pra valer, isso eu sei. É bonita, ouvi dizer.

Então, com a psichê dos instrumentos, papai se colocou a demonstrar o instrumento que eu queria tocar. Haveria de ter, em mim e na música a se discorrer, o quanto de harmonia teria no relacionamento a acontecer. Gaita deixei de lado, sozinho não era o ato, piano que ele diz ser o senhor da melancolia. Perguntei porque seria, o madeirado de teclas o choroso da música, e papai me respondeu que em suas notas escondia amores distantes. Entendi de pronto, o fato de teclas em preto e branco, separadas, mas ainda conectadas, como um amor que vai e fica, uma grave e agudo que dizia. Amei a poesia da descrição que papai fez, porém, disse a ele: “piano é muito grande!” E ele meneou sua cabeça positivamente, dizendo o que tinha em mente: “grande era também o seu sentimento.” Piano deixei lá, não menos em mim. Não houve esquecimento.

Gaita e piano para trás, menino empolgado eu era e queria diversão pra seduzir. Tolice de juvenilidade, coisas da mocidade, peguei uma bateria pra fazer um barulho. Papai advertiu no minuto a lição de Pitágoras, que música e barulho são coisas distintas, e a bateria era o som estridente da rebeldia. Amei a matemática sonora do pensador, a expressão de meu pai no ardor, de fazer de mim um revolucionário nos pratos das emoções. Chimbal pra lá, fiquei a pensar, se ela gostaria de ouvir as baquetas a bater. Na dúvida, deixei de ser: ela poderia fugir ou correr. Papai entendeu e continuou a me oferecer. Música pra encantar, um amor para nascer e eu não sabendo esquecer.

Logo ele se apressou e demonstrou a delicadeza do violino. De inopino animei, e pus a ouvir alguém tocando sinfonias de Bach em dialética com o movimento. O homem no toque, aprofundou o retoque, e explicou para nós dois que violino era o tímido menino que depois poeta foi. Identifiquei-me com o instrumento e o seu tormento, a beleza de demonstrar o quanto de sentimento a arte pode ter. Concreto ser! Mas a arte que eu queria era ela e, ao invés de poeta, a poesia eu queria viver estrofe a estrofe, a ouvir a voz do verso dela. Stradivarius que me perdoe, mas antes o menino do que o homem no violino. Papai riu-se de mim tinindo e me levou para outra seção. "Outras cordas irei lhe mostrar", disse meu pai. Eu só queria amá-la, guardei. Essa era a questão, sei. Minha canção de toda vez, toquei.

Desse modo acústico, o sonoro de mim reproduzido, papai havia entendido e duas cordas me mostrou: uma guitarra e um violão. Do primeiro ele explicou, seis cordas existia, a ecoar uma vida que se alinha ao ritmo do pulsador, rebeldia inata maior que da bateria. Tum, dum, tum, dum, dum, tum, tum, ra, ta ta ta, solo maravilhoso, lembrei da cena do deserto do homem de cartola cantando de frente à igreja, como um dia ela me mostrou na deixa de vê-la sorrir. Guitarra papai me ensinou ser, o instrumento adolescente que envelhece e não se esquece do que é desde o nascer. Tum, tum, tum, dam, dam, arrepiei de lembrar como eu queria ficar no Peter Pan com a Sininho a concretizar o romance dos contos de fada. Mas isso não era a balada, melodia a tocar o coração dela, rasga nota acorde a ouvir um não menor antes de se pronunciar o refrão maior. Novembro chuvoso queria não, paciência era de ser, ainda que eu tivesse de bater nas portas do céu. Papai me ouviu e disse baixinho: "oh, minha doce criança, não perca a esperança". Eu era a pujança e ela o que movia a minha cidade, pois, ela era uma em um milhão. Única na multidão... Ao fim do meu show eu teria a cidade paraíso. Cantei sozinho, mas não chorei. Uma guerra civil dentro de mim foi, uma composição de armas e rosas sem festa.

E não perdi não, após ouvir, o último instrumento a ver: violão, pra cê compreender. Mineiramente fui, perto do também seis cordas, e me apaixonei por aquele miserável fortuno. Formas havia, a lembrar de quem amei um dia, linhas harmoniosas da melodia de uma poesia só: violão era dó ou sol. Perdi-me no instrumento, papai já queria fazer o pagamento, mas quem estava no dedilhar do violão perguntou o porquê da ocasião. Disse eu que queria impressionar, arriscar as notas e tocar, além do instrumento, o coração daquela que eu amava de perdição. O músico sorriu, e meu pai sentiu, que isso não era a solução. Violão de lado ficou, papai então contemplou a fala do músico que ele também entendia. Assustado fiquei, minha amada mais longe ficou, pensei, quando assim o músico expressou aquilo que meu pai fez-me anotar. O último dedilhar do violeiro foi a nota que veio pra ficar, porque, depois de ouvir seu violão, entendi, pela fala e música dele, o que é amar. Assim foi seu refrão, canção que pra mim foi um despertar. Contenha-se aí, se aguentar!


... antes do instrumento, a música e, antes da melodia, a paixão. Se colocares isso nos seus devidos lugares, impressionar não precisará, pois, o silêncio da cumplicidade de um sim, fará você jamais ouvir um não."


November Rain, solo de violão, trilha sonora de A Loja de Música.

Comentários

Postagens mais visitadas