Pedras no lago


 

 Era uma vez. Toda boa história começa assim. Digo por mim, deveras, já li e vi muitas boas narrativas, lidas, vidas e idas, quase todas sem volta. Porém, embora seja assim, ainda estou aqui, para que você comigo seja mais um ou uma a lembrar da boa história ouvida, vivida, contada depois. O ofício é difícil, sei. Mas as letras a contar, aquelas do meu íntimo, jamais foi um suplício. É o que eu faço, muitas vezes, sorrindo. Mentira besta isso, Menina!

Então conto que estava eu em minha solitude. A atitude desta, diferente da solidão, é curtir de montão o que tem dentro da gente. Ah, Menina, digo pra você, é tanta coisa que não sei dizer. Decantar o guardado é olhar pra trás seguindo em frente. Muita gente vive aqui, povoamento de meus sentimentos, personas que bordaram minha vida e teceram meu destino. E é lindo de narrar, nesta crônica a lhe tocar, nos passos de viver fui ao lago hoje para sentar e ver as lembranças vivas da saudade. Venha devagar, Menina, para apreciar esta arte de sentir.

Sentei-me ao solo e não ao chão, gramática diferente, olhei as águas. Calmas elas eram, o lago turvo bonito, ao ar da manhã, cheiro de paz. Sem precipitação de sereno, muito menos chuva ou tempestade, o horizonte era azul de firmamento. Consegui ouvir pássaros cantando, assobiando, junto a passos de gente, o dia harmônico lá fora. Pensei, o lago é assim também na sua exterioridade. E na sua interioridade? Filosofei, linda Menina...

Sei que por cima das águas há a obscura cor que não deixa os olhos atravessarem. Desconfiei do que havia dentro, curiosidade de Eva, humana impetuosidade, cogitei de peixes nadarem. Uns pra lá e outros pra cá, no caótico movimento que gera turbulências aquáticas, aquelas que eu não via. Uns contra os outros, uns maiores do que tantos, um cardume de enganos, sem saber pra onde ir, tentando sobreviver ao lago calmo, vestido ilusório. Alguns transeuntes jogaram migalhas a alimentar os peixes desvairados dali. Como eles sabiam que estavam com fome? Não sei. Julgaram assim, arremessando farelo de pão e distanciando-se dali, então, sem a mínima empatia com os písceos. Entendi nada, Menina, minha paixão. Os peixes eram confusão, ponderei.

Mas deixei a fauna em sua pseudocalma e não larguei a vista do lago parado, mansidão aparente de uma beleza só. Contudo, imaginei o quiproquó do meio daquelas águas, o que estava abaixo do tecido hídrico e acima do fundo abissal do lugar. É ao meio que a coisa acontece, como na tarde de um dia e no meio da vida. A zona mediana é o espaço de confluência, onde ira e paciência se digladiam, sabendo o que está abaixo e esperando o que vem acima. Abaixo, ao solo, não posso esquecer-me deste termo gramatical, as águas depositam tudo o que foi, o passado por ali. Estão lá, ao fundo, paralisadas, emolduradas, absorvendo toda a força da natureza e do tempo, em uma rigidez quase gélida. Acima do meio, o sol aparece em feixes de muitos lados, confusos e desfigurados, sem a gente saber para qual lado vai. Mas a gente vai, como os peixes que disse, nadamos caoticamente tudo isso em alguma direção, contra toda probabilidade. E em uma oportunidade, ao tempo da idade, as camadas de baixo, do meio e de cima se fundem, formando o lago de novo, turvo e calmo para quem vê de fora. Ah, Menina, isso é uma anedota de mau gosto. Mas de tudo isso, o que me sossega, é lembrar-me do seu rosto. Quem me dera ser um peixe...

Para nesse aquário não mergulhar. Não o seu, Menina, pois, você deságua em mim, e eu, oceano. Contudo, nesse momento, não oferto o pranto, pois, o lago se mexeu, em ondas de desacreditar. De repente, aquela calmaria toda pareceu virar mar, revolto e imponente, como o amar de verão, deveras. E não era uma quimera, a sair do profundo das águas frias e emergir para amedrontar. Não mesmo. Era um mergulhador. Se ele tinha dor, não sei. Só sei que há em mim o furor de lhe ver, Menina. Águas nada calmas me restam. Testam!

Mas aquele homem a sair do lago, mergulhador de profissão não sei se era. Porém, sei que o vi sair daquelas águas. Ao avistar de seu cabelo umedecido, rosto molhado e enrugado pela excessiva hidratação osmótica, visualizei também emergir tantos outros objetos distintos, acumulados ali no lago. Minha ciência foi pescada pela fé ao presenciar a erupção tsunâmica daquele homem, surgindo junto a ele, fora do açude natural, cacos de vidro, espelhos trincados, tapeçaria rasgada, chaves enferrujadas, retratos desbotados, caixa de presente lacrada, flores desperfumadas, moedas da sorte e do azar, promessas em cartas borradas, pares de anéis solitários de ouro e frases não ditas. Meu Deus, fenômeno esplendoroso, o homem saiu caminhando, nas águas e na terra, vendo cair nas margens ao seu lado e de mim, todos os itens descritos aqui. Seu rosto ainda úmido, porém, calmo, contrastava com a volúpia das águas, agora agitadas. Sua mão estava fechada, firme, cerrada e nada sublime. E meu crime é não lhe esquecer, Menina. Cem Anos de Solidão não!!!

E com aquele aspecto de refrigerado, renovado, ressurgido, ele me olhou. Consegui ver uma história, um calor, e aqui não pude deixar para trás a memória do que um dia eu vivi, Menina, amor raro. O mergulhador, de um jeito sápio, aproximou-se mais e, derradeiro, abriu sua mão. Nas palmas das linhas desta havia grãos de areia, finas e refinadas, gradiente por gradiente. Fiquei na beira de entender ao ver aquilo, mas fiz a pergunta do porquê trazer o fragmento disso em suas mãos após ascender e caminhar. Ele sorriu gentil, virou seu rosto pra mim e definiu a mensagem que resposta plena foi. E, assim, comigo, Menina, tu jamais foi depois. Ele disse, então, pois:



Mergulhei no lago para buscar suas pedras, porque hoje eu sei que o peso delas você consegue carregar."



Here In My Heart - Scorpions with The Berlin Philharmonic Orchestra - trilha sonora de Pedras no lago.

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