Gavetas Vazias


 

A vida é uma confusão. Sabe disso não, Moça, pois lhe digo, sim, demais então. É uma repetição, sei o que lhe digo. Mas não respiro, só pra lhe avisar, que tudo isso é verdade, algo pra não suavizar. Corda do violão que arrebenta, bolo de aniversário que no trânsito cai, criança chorando pelo brinquedo quebrado e eu sem jeito de lhe contar o que tem desse lado. Notas explicativas para entender o recado. Viver é um caos remendado.

Contudo, Moça bonita, pode se arrepiar: não contei nem a metade. Espanta não, ainda é arte, o correr vivente e as letras nos seus olhos simplesmente. É gente descuidada por todo o lado, seja no falar ou no tocar a banda ou o coração, sensibilidade que parece desconvidada. É esquecida gentileza, o mais demorar no olhar, a ternura pedagógica que compreenderia o outro, em toda a sua história não lida. Sim, Moça, tem gente que não lê a vida. Prefere desmanchar o existir do outro, rabiscando seu desenho, impedindo sua expressão de expressar, furtando a assinatura do que a pessoa poderia dizer. É, caríssima, é de chorar de ver. Oferto-te o lenço para aqui a ternura não deixar de ser.

Mas não quero choro seu, borrar o papel assim. Águas são refrigério sim, porém, pra ser sincero, não é isso que quero ver de perto. Venho aqui, petulante eu sei, mostrar pra você como se arruma a casa. Ah, sua danada, não olha pra mim desse modo, pois fico sem jeito e me desarrumo no desassossego, sem organizar aquilo que vim propor. Deixa a confusão lá fora e na vizinhança ignota. Não seja fluente no dialeto da discórdia. Sua casa é só bonança. E esperança é seu tapete de entrada.

Confusão você vê no que eu digo, mas espere só isso que tudo vai entender. Estás pensando: “minha casa está arrumada, comida e roupa passada, agenda anotada, embora esquecida em algum lugar, sim, mas isso é nota ignorada, detalhe que esqueço pra lembrar.” A conversa assim não ajuda, todos os quadros estão pendurados e o relicário sem nenhum bibelô perdido, pensa você. Contudo, tudo isso é o motivo da minha missão de hoje: mostrar que organização é caos. Depois dessa sandice você olha pra porta, para a saída e esboça um tchau, um adeus. Ah, meu Deus, isso não pode ser o final.

Mas não faça isso, meu bem, é importante o que tenho pra lhe dizer. Veja só essa sabedoria, de didatizar a vida, propondo que organização é escravidão. Controlar a ordem é devastar as emoções, segurar as paixões, querer tampar demais a panela de pressão. O prego fura a parede, a tinta borra o papel, a omelete quebra, não dizer bom dia esfria o café e a gente. Ah, até vejo o olhar apertado, a porta ficando mais do meu lado, eu procurando palavras nesse beco estreito do constrangimento. Eu não me aguento, Moça Bonita. Quebre essa seriedade, ria pra valer e sem serenidade. Viver é divindade, minha senhora. Não dizem que Ele escreve por linhas tortas? Isso não é anedota!

Então abandone a sisudez estampada na face, o relógio e o disfarce e venha se divertir. Vejo que estás a rir, de nervoso estado, porém, eu não me desfaço da finalidade de descontrolar você. É tudo por querer, desarrumar suas agendas, as notificações, o guarda-roupa alinhado, a cristaleira de copos limpos. Insulto à vida tanta arrumação assim. É no destempero que sentimos o sangue, o pulsar no peito, de mais aproximar o veio e gritar: sou assim mesmo! É, eu sei, beleza de ser, venha com essa força de ter as garras de suas mãos cravadas nas espáduas da vida. Deboche da ordem, brinde com o caos e se liberte das correias apertadas das sandálias. É tanta coisa que nos prende, cartão de ponto e conduta impertinente, e a vontade muitas vezes é de apontar o dedo do meio, de repente. Moça Bonita, isso é uma metáfora! Mas vejo que aprendeu rapidamente.

Controlar a vida é como querer segurar um cavalo selvagem encontrado ao meio da mata. O encantamento nunca foi as rédeas que aprisionam o corcel, agora domesticado e, sim, seu correr livre a ser perder no horizonte. E não se desmonte, pessoa linda, porque você sabe a saída, do agora representado ser desenlaçado. Culpa não é remédio, agradar não é ética e sorriso sem riso é névoa de sentimentos. Tormento são os outros, nuvens densas que surgem na nossa primavera de temperança. Lembra-se das águas? Elas são refrigério, sim. Mas quem esquenta é o sol. E jamais conheci alguém animado que fosse frio. Agora vejo seu sorriso. Parece que a névoa se foi. Ri de mim, pois.

E se foi de mim a Moça Bonita, tresloucada por descobrir como isso de sentir é bão, muito melhor que pão-de-queijo, beijo não sei. Mas vou deixar pra depois e concentrar no que ela foi. Um raio de vulto se fez, levantando-se muda, rindo em seus lábios, desordenada, confusa, coberta em sua felicidade repentina. Cheia de vontade, ela rompeu seu silêncio, me chamou por um momento e mostrou-me algo: seu quarto. Lá em seu recanto de intimidade, com muito mais verdade, ela abriu todas as gavetas de seu armário. De modo muito assanho, disfarçando o pranto, arremessou para fora tudo o que ali estava. Sem compreender nada, aproximei-me da Moça Bonita, ofereci novamente meu lenço e uma ida, porém, ela recusou. Virou-se para mim, no seu instante assim, e percebi o quanto de livre ela agora era. Sem mais esperar, alegre por estar, emocionada também, ela me disse sem pestanejar:


 “Aqui está minha vida. Aqui estão minhas preocupações. Todas as roupas antes vestidas não eram minhas. Eram das ocasiões. Descarto essas camisas, saias e outras coisinhas, pois quero a vida. E não há como -la preenchida se minhas gavetas não estiverem vazias — se eu não conseguir guardar o que apenas me veste e põe.


Radiohead - Creep (Acoustic Cover by Dave Winkler) - trilha sonora de Gavetas Vazias.


Comentários

Postagens mais visitadas