O estrangeiro que encontrei
Tornar-se não é da noite para o dia. Divenire, Musa Mia, ver o crescer de teus longos cabelos negros desde a aurora dos meus sentimentos; já não aguento deixar de expressar em canto o que amo: tua beleza postada. Admirada, torno-me o homem a se encantar pela vida ao viver a mesma época em que tu respiras. Quanta alegria!
Teus sentidos que me tocam.
E se voltam a me entregar passos na caminhada que faço agora, um pouco depois do entardecer. Jamais esmorecer, pois, um e dois, vou depois de ver você sorrir. Três e quatro são os compassos da distância, medida da saudade. Cinco e seis são as blandícias suas, suavidade da sutileza. Sete e oito são sua astúcia de me prender ao me libertar assim. Ao fim, nove e dez, matemática do reencontro — como é gostoso o momento de se rever sem nunca ter perdido a vista.
Isso é poesia.
Diário Crônico de mim.
E desse jeito apaixonado fui-me embora de minha Pasárgada, onde Musa Mia é rainha. Desci as vielas da vida para me perder em becos, esses lugares apertados do peito. Contudo, em um relativo sossego, fui experimentar novamente a jornada de viver, para logo reconhecer que meu lar não sai de mim.
Ela desconfia disso.
E eu suspiro...
Não conte tudo, querido leitor, por favor!
Andando no chão com os pés nas nuvens — essas coisas tolas e gentis do coração —, encontrei na estação um velho amigo de infância. Um brio numinoso veio a mim, espantando a nubícoga frieza da distância no tempo.
Eras que eu não o via.
Apressei-me em avisá-lo de que eu ali estava a reatar a prosa de outrora, amizade inseparável e anedótica. Fui recontando nas memórias as figurinhas e as bolas que rasgamos e chutamos, rindo e chorando na mesma proporção. Recordava-me de como eram auspiciosas suas investidas; em namoros e despedidas, um toque de Don Juan ele tinha. Concluí a riqueza de agora pela curadoria da paixão que ele teceu.
Seria ele o Navio de Tesão ou de Teseu? Ops, sei não; perguntei, então.
A resposta dele veio áspera, dura, sem o vapor daquele tempo. Não sorriu ao me ver, cerrou os olhos de modo afastado e disse que o destino era culpado por aquilo que se tornou. Enxergou culpa e pedagogia nos desperdícios dos afetos e se viu desprevenido quando percebeu a mesa vazia. Anotou a mim que paixão é coisa adolescente, olhando no horizonte em busca dos alimentos perdidos, aconselhando, com isso, toda a gente que a ele se apresentava.
Não se riu de nada.
Despediu-se de mim e da graça e me viu diferente: “Você parece feliz, cuidado com isso. Dor de cotovelo dura mais que beliscão”.
Não me abraçou e pegou um busão.
Não reconheci aquele amigo, mas continuei minha caminhada. Meu riso diminuiu um pouco, mas lembrei-me de ti, Musa Mia, e fiquei a alegrar-me. Divenire, amore mio, teus beliscões são meus devaneios de ficar.
E eu tenho dois cotovelos! Não há com o que se preocupar.
A seguir, entrei em uma tapeçaria, pois tu pediste um tapete marroquino, ao que faço sem pensar o que me pedes sorrindo. Fui no tino, na loja dos vestidos de chão, encontrar o tecido encomendado por aqueles olhos de perdição. E lá avistei mulheres tecelãs, tecendo em silêncio sua arte de dizer. Cada tapete uma forma, uma linha e muitas curvas, ângulos distintos costurados e laços ao lugar de nós desatados.
Mas não se ouvia nenhuma voz feminina.
A tessitura gritava o que não fluía.
E meus olhos logo encontraram uma companheira de outros tempos. Ela tecia um tapete também, em seu ritual mudo, a movimentar as mãos na velocidade do pensamento — universo carpeteado. Recordo-me de como ela era sagaz na fala e na coragem de vociferar discursos bracicândidos, fortes e arrebatadores — uma artesã da eloquência, causadora de espantos. Vencia debates, argumentos, dúvidas e incompreensões. Valente e dona da gramática, hoje ela estava sentada em silêncio, sulcando o tecido a ser estendido nos lares por ela visitados.
Sentei-me ao lado dela, perguntei como estava, e ela se espantou ao ver meu rosto. Disse que algo diferente eu tinha, nota de rodapé em meus lábios, textura vermelha na boca a desfiar, depois, os fios da cicatriz dos apaixonados. “Tome cuidado, tu estás perdido por tanto sentir. Nenhum coração conhece a textura do nosso”, disse para mim, e indicou modelos emborrachados. Fui-me embora, esbarrei em um pote de vidro que quase caiu e peguei apenas um tapete embolado.
Musa Mia, lhe estendo o tapete vermelho e o recolho sem ficar enrolado.
Sem ficar pisado.
Debaixo de meu braço coloquei o tapete e o calor guardado, Musa Mia, apressando a passada para ver como tua paisagem estava. Teu silêncio diz criptografia, teu olhar é dicionário e teu riso é legenda hieroglífica. Entrei em uma livraria e fui buscar Sêneca para você e a vida. Leitura é uma entrada garantida sem saída, pensei.
E eu amo me perder em suas páginas, eu sei.
Em meio a tanto falatório, busquei a seção de prognósticos, os manuais de como sobreviver. Passando pela autoajuda, bulas de remédio e misticismo, cheguei ao mundo da literatura, meu abrigo costumeiro. Camões me olhava de um jeito que me virei para Cervantes sem veio. Mas Machado reprovava o que Álvares de Azevedo buscava, a medida de amar e sofrer dentro do frasco de Clarice. Coração Selvagem perto demais, árido Sertão Rosa, busquei uma pequena amostra que dure, um soneto de Vinícius. Esqueci-me de Caio, Mário e Tício, deixei-os nas promoções de outlet e, sentindo meu vício, vivi minhas Confissões.
Almas Mortas jamais, gritei. Idiota sou? Não, eu vivo o Sonho de Uma Noite de Verão.
Minha Utopia de Alquimista.
Mas mansidão eu não era. Insustentável Leveza do Ser, deveras, busquei Aurora para ler, pois, ao Morro dos Ventos Uivantes, percebi que minha doce vingança é Amar em Tempos do Cólera, para não ser Cem Anos de Solidão, alguém esquecido em naufrágios anotados por Trabalhadores do Mar. Peguei Sêneca e Adélia Prado e fui para o caixa pagar. Musa Mia, aguarde, chego em casa para o jantar.
Cartas escrevi para você se alimentar.
Apaixonar...
Ao passar os livros e as notas, uma mulher passeou por minhas mãos. Senti uma erupção de surpresa e o destaque de uma beleza, uma memória diante de mim. Seu nome era Jasmim, alguém do passado, e me disse que eu estava estranho — uma estranheza amável. Reconheci o rosto dela, o quanto busquei por ela, caminhos que nos levaram para outros destinos.
Outros lugares.
Houve uma cumplicidade momentânea, engate dos tempos, diálogo diluído naquele momento, com a despedida dela repetida e eu com minha estranheza admirável. Antes de partir, apenas deixou o recado, mensagem atrasada, como ela explicava, ao fim da frase que ficou — um Divenire, Musa Mia, que a mim restou:
“Naquele tempo tu eras um estranho conhecido. E hoje um conhecido estranho. Naquela época eu lhe estranhei porque o vi com o que eu tinha vivido. E hoje lhe admiro pelas lentes do que vivi depois. No percurso da vida, eu encontrei muitos estrangeiros. Mas hoje eu sei que muitos deles ainda podem ser naturalizados, pois todos nós somos estrangeiros até vivermos a estranheza que o outro já viveu. Até o instante em que o estranho seja em nós vivido. Até o dia em que o estrangeiro seja em nós encontrado.
E das terras do incompreendido, numa paz estranha, sermos resgatados.”
Ludovico Einaudi - Divenire - trilha sonora de O estrangeiro que encontrei.



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