As suas palavras não encontraram asas
Os campos eram verdejantes, a casa de tijolos vermelhos, e o
ar fresco da manhã era o afã do conforto gentil. Cesta de pães quentes na mesa,
café esfumaçante e perfumado a postos, guloseimas da felicidade junto ao
paladar do afeto aquietavam o dia e o coração — ela veio em sua camisola de seda branca na minha
direção e disse:
— Bom dia!
E as suas palavras não encontraram asas.
Parece romance o que escrevo. Não fique sem jeito; sou
desajeitado perto dela, a Menina que ocupa minha morada íntima. E isso me
anima, nem te digo o quanto, para avexado não ficar. Troco o gênero literário,
açúcar no queijo pra morder, e não posso crer que a beleza habita meus olhos.
Sensação estranha que nos ocupa, devasta e arregaça a pele de tanto rir.
Sorrir. A alma da gente fica pequena diante de tanta imensidão.
E a minha só via paixão.
Disse com cuidado o bom dia, retribuí o amor, esse que se dá
sem receber. Ela mordeu os lábios, doce de leite de lado, e aromatizou meu
olfato de lugares. Piscou seus olhos, passando manteiga na bolacha, e eu, sem
graça, tentava persuadir que deveria ir trabalhar. Gargalhada dela veio,
derrota minha sobreveio, e, no calendário do dia, não era feriado. Era data de
desassossego.
O gesto dela não encontrou asas.
A essa altura, eu já havia perdido o ponto — do patrão e da razão —, e as pastas de papel de memorandos viraram
guardanapos de poesias. A Menina sorria ao me ver pegar o lápis para desenhar
aquilo que seu corpo dizia. Não era contabilidade, mas a volta da mocidade de
se amar como na juventude, um verso pueril escrito. Dois pulos eu vi: no salto
dado por ela, na minha direção, e, dos sonhos, a realidade de segunda-feira
trocada.
A realidade na qual tudo é o que se esperava.
O diploma pendurado na parede parecia me censurar, a medalha
de natação não compreendia, e o certificado de palestrante ficou mudo diante da
minha troca de roupa: deixei o terno e vesti o chinelo. A Menina subiu no sofá,
desfilou seus delicados pés pelo algodão, e a mansidão já me regia. Aquilo era
meu mundo de fantasia, e a seda branca dela me convidava.
A ternura que não encontrou asas.
O tato foi nosso acordo, contratos bancários esquecidos e financiamento do carro postergado. O que era rico ficou guardado naquele instante revelado; na visão do nosso capital, o investimento era gastar mais por esses momentos. A Menina depositou amor, e eu fui pródigo em consumir. O despertador gritou três vezes o atraso, e o tempo com ela já não nos atingia. Perdia-se.
O relógio que encontrou asas.
Fechei as janelas de casa, deixei águas em nosso jardim e
plantei mais um girassol. Senhor Silva, o vizinho, deu seu olá, mas eu, acolá,
me acorri pra dentro para que a espera não mais esperasse. A Menina regou seu
rosto, ao regaço dela me chamou, e eu me prontifiquei a esse labor de ambrosia.
Seus dedos petalados deslizavam em minha cabeleira, e eu, de vez, fiquei sem
beira, como um adolescente apaixonado. Ela tatuou em minha nuca o seu batom e,
em meu universo masculino, a inteireza.
A pureza que não encontrou asas.
Os sons da cidade foram se diminuindo, e a música da voz
dela foi assumindo a orquestra de minha audição. Ao seu ritmo me dispus, o
acorde do violão que seduz, sonoridade de seu suspiro leve ao deixar seu ar
expirar e me aquecer. Um clarinete suave, seguido de uma lira grega, conduzia o
pulsar do meu peito. Metálico era meu sangue, ferroso ao apressar as notas a
sibilar a harmonia de nossos sentimentos. Ela era poesia, e eu, instrumento.
Seu vocal que não encontrou asas.
A Menina foi meu alfa e meu ômega, o início e o fim, o princípio
e o derradeiro, e minha liturgia era seu altar. Nosso livro sagrado era nosso álbum
de fotografias, lembranças recortadas em molduras do templo de nossa casa. O
pão era repartido, o peixe multiplicado, e seu verbo era muita carne, o milagre
de nossa rua. O sagrado feminino respeitado, eu aqui admirado, e ela a fazer a
homilia. A Menina era a cidade paraíso. E eu batia sempre nas portas dos céus,
doce como uma criança, sem mais chorar em qualquer versão.
Jamais uma má obsessão.
Um anjo que não precisou de asas.
O dia de feira se perdeu, e ganhei o domingo. Não há o que
se buscar lá fora quando por dentro se transborda. E ela, novamente, me deixa
sem jeito, trocando palavras crônicas no desejo que não se esgota. Devota-se à
arte de perpetuar ainda mais aquilo que se vê e não se mede. Pedagogia da vida
que se escreve.
Saudade que jamais encontra asas.
Richard Marx - Right Here Waiting - trilha sonora de As suas palavras não encontraram asas.



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