Areias
Chego devagar porque eu nunca tive pressa. É essa a conversa que faço com você, para vir e ler o que vou lhe contar. Estou na praia pela manhã a ver o Mar em suas ondas no vai e vem de mim. E é assim. Vou lhe dizer.
Mineiro sou pra você entender. Café quente ao acordar, despertar do sono para viver o sonho de ser feliz. Ah, digo isso além de um triz, abertura do contentamento, para perpetuar o momento de ver seu sorriso travesso. E eu me perco. Eu vou mergulhar.
Mas antes meus pés esquentam, caminho, sento e início o pensamento. Sim, eu não me aguento, tanta coisa a movimentar, as águas daqui e do mar, por sentir tanto sentimento. É saudade de ontem, de hoje e do além amanhã por vir. Divertir enquanto a festa não acaba. Na lembrança ela me abraça. No lugar apertado ninguém vai embora.
E assim cotejando o viver, vejo aproximar a ver uma Mulher se achegar. Calma lá, apenas observo, não sou assim de perto, muito menos de longe, para se atrever. Prefiro conhecer, aos poucos e sem pressa, numa tarde a conversa, para a noite não ser tão escura de sombra. É o que se demonstra, mineiro é desse jeito, oferto o riso e o sossego, depois de muito prosear. Vou lá tentar. O Mar é testemunha disso. E minhas águas também.
Ela senta quieta, vento no rosto, cabelos pretos tremulando e o sol espelhando o esplendor de uma beleza jamais vista por mim. Por Hélios e Éolo, os deuses que me perdoem, mas nunca vi uma Galateia perto do Mar. No Olimpo, Hera há de enciumar, mas quem sou eu para o mistério da beleza discorrer. Tenho medo até de correr, paralisado fico, ao ver no fio, o destino escrever. Por enquanto estou à mercê do Mar, do Sol, do Ar e de mim. Pensei ter vindo aqui para passear. Depois fui saber que de alguns lugares jamais partimos.
Mas volto ao assunto, curiosidade despertada, e nada de águas e de ondas a molhar o peito. E vejo o semblante dela, carregado de tempestade, antes o trovão do que o raio, se eu precipitar assim. Pelos lados eu fui, chegando devagar, pois paciência há de ficar, no não chorar da chuva de novembro. Arrisquei a perguntar pelo vento e ela ventou a ventania por mais de um momento.
A Mulher era meio Sêneca, estoica de ser, disse poucas palavras em contraste com a prolixidade de seu corpo, o qual dialogava outra coisa. Mãos cerradas, pernas alinhadas, braços sobre os joelhos, olhar no horizonte a ver o Mar e cobrir o interior, este muito bem vestido.
Escondido...
Notei isso, na sensação do cuidar, e me pus a arriscar o que era aquela sisudez. Argumentei a enamorar sobre o fato de o mar estar calmo, a areia na temperatura boa, e ali ser tôatôa, a viver os dias que a vida entregou de dádiva. Ela suspirou danada, no franzir de testa, no que a deixou mais séria, impossível de ser menos bela, arte difícil de dissuadir. Eu não escapuli. Voltei a conversar!
Tentei analogia, menos alguma piada, pois, por essa tática não quero morrer. Nem de convencer a ficar, pois, posse não pode ser o que o coração guarda. Ela ficou então desarmada, um pequeno esboço de riso veio e trouxe a mim a acusação de eu ser Dom Quixote, perdido nas ilusões dos moinhos de vento. Não perdi essa linha direta, a conexão com ela, e complementei a frase dizendo que eu era borboletas no aquário. Aí ela não se aguentou, a piada então se mostrou como forma de me apresentar. Morrer disso vou, pensei. Não da piada, mas de ser quixotesco, talvez. Eita, sô, um pão-de-queijo pro cê!
Um pouco menos Sêneca ela foi, piano em progressividade acústica sendo, e disse que o melhor é não ter tormento, pois da vida ela queria viver demais. Não morar em casa, mas em si mesma foi a resposta, cidadã do mundo e de seus desejos, altiva e linda, uma poesia do desassossego. A isso respondi ser o ideal, o melhor assim, afinal, a ter cada momento vivido e multiplicado. Ela olhou para mim de soslaio e eu tentando manter o compasso. Árduo isso, eu acho.
Firme ela fixou seu olhar em minha alma, desnudando-a para ver o que lá estava e confidenciou: o que eu quero é seguir em frente, sem mais nada em mente, esvaziar o peso que me ocupa. Contudo, eu me pus a colocar a dúvida, do que o peso seria, porque muitas vezes o peso é a medida da balança. Ah, ela ficou sanha, danada, sardas salpicadas na face demonstrando querer avançar quando fechou seus olhos, apertando os lábios. Meu modo de segurança foi ativado, fiquei despertado, porém, ainda admirado da beleza dela mesmo na ira. O Mar é que via como o vento levava os fragmentos de mim, salgando suas águas, no de-encantar depurado. Fiquei sem espaço. Perdi o chão e o lugar, e, talvez, a fronteira com ela.
Mas a resposta veio de inopino, duas crianças vindo, arrumando brincadeiras na areia. Foi assim: a Menina fazia o castelo e o Menino chutava; ela ria disso e ele sem mais não sobrava; ela redesenhava o castelo e ele desmanchava; ela ria lindamente disso e ele continuava; a areia esquentava os dois ali e o Mar abraçava; a Menina veio e desenhou na areia um coração e o Menino um rabiscão, no que ela adorava; ela escreveu seu nome no chão e ele disse que a amava; os dois levantaram dali e as águas do Mar não mais avançava. Foi o que eu vi dos Meninos e a Mulher, pelo jeito, ficava.
Apaixonava?
As ondas recuaram diante disso e o olhar da Mulher não se aguentava. As crianças sumiram no horizonte e a Mulher tempestuava. Eu mergulhei nas emoções dela e ela soluçava. Não mais pensei sobre e a um abraço nela fui. Ela chorou comigo no íntimo e eu sabia que depois seria sozinho. Amar assim é perdição, oxente! Ao Mar nenhuma água se vai em vão, cabra valente!
Apertei-a em meu abraço, tateei as linhas de seu rosto, enxugando as lágrimas e pedi para ela ver as areias. Ela ficou sem beira, perdida dentro de si e de mim, tentando-se encontrar. Mas apontei para lá, no granulado fino das areias do Mar dizendo que tudo aquilo um dia foi pedra. E que as águas do mundo, todas elas, sem pressa, fizeram-na reduzir a areia. Aos grãos que nos aquecem agora na praia, ao sal que salga a terra e o choro, o mesmo material do qual meninos e meninas fazem castelo no seu jogo de criança. E, desse modo veio a esperança, pois, pela primeira vez, senti que ela me achou belo. E isso de dizer agora não foi esperto, coração bobo!
E a Mulher falou, as palavras não foram poucas, boas letras e voz que guardei pra mim, como o Mar guarda as areias da vida depositadas no fundo. Uma lição do mundo que se desenhou ao fim ao esboçar do rosto dela. Ela se levantou diante do sol e do mar e, então, com ar em seu peito e retidão, a Mulher me disse, então:
“Não sou rocha, não sou pedra. Sou Sol e Mar, o Ar e o Fogo. Sou todos esses elementos e nenhum deles sou eu. Nessas águas tem muito de mim. E nenhuma delas sou eu. Se um dia quiser conhecer a mim é só voltar aqui, pois, pelo que aprendi de você, todas as pedras vão para o Mar. E é nas areias da praia que elas se reencontram, que elas se decantam e se depuram. Quer conhecer como sou? É só acompanhar o caminho de minhas pedras pelas águas de todos os rios até um dia chegar ao Mar. É nessas areias que vou estar. É nesses grãos que estão sedimentadas minha história. É nesse chão que estão os meus dias...
e o meu lar.”



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