Um dia no Museu

 



 Era um dia qualquer. Não havia algo novo para lhe contar. Nada a rememorar — ao menos pensei, quando fiquei nisso de pensar. Sentir. Sei que vais rir, depois do caminho aqui a trilhar, convidando você, Menina, a trilhar os percursos das linhas apagadas das memórias. Não é anedota. Um capricho meu para lhe conquistar, talvez.

Aspirei o odor da flor a perfumar o encontro contigo antes de acontecer. Isso é para você ver como me lembrei do que nossos momentos são: floridos, encantados, enamorados pela saudade. Desse jeito, percebi a necessidade de um passeio contigo; mais retratos para se ter, fotografia — uma maneira de, no futuro, lhe tocar. É de arrepiar. Pele que se levanta, coração que não se aquieta.

Mas hoje é festa, diversão garantida, para se ver na vida a arte do que os outros viram. Fizeram. Ir ao museu é ao que me presto: mãos dadas agora, tato na parede das lembranças. Já fui criança. Ao seu lado sempre serei menino.

E estamos na casa da memória, para a qual lhe sorrio sem demora, a observar o tanto que caminhamos até aqui na história. De início, Menina, visualizamos O Grito, de Edvard Munch, visto por um casal que não tinha sorrisos. Meu olhar avistou a sisudez gélida daquele homem a dizer para ela que aquarela não queria ver. A doçura da voz dela respondeu, relembrando a visita de outrora, explicando que os dois se perderam de entender que Munch era além de um borrão, no que o homem cerrou seus lábios. Ela sentiu, então, os anos perdidos e viu o marido ainda nos gritos do passado. A mulher se decantou de sua petrificação, mas viu que seu companheiro era uma estátua na relação. Ela via dois quadros. Ele ainda não havia enxergado o primeiro.

A Menina fez "psiu" para mim, no que eu ainda mais vi o sentimento de dentro não se esconder.

Rejuvenescer.

Saímos do grito e fomos à estética, ver a beleza idealizada de Botticelli, a renascença esplêndida de O Nascimento de Vênus. Esse quadro eu estudei na escola, entre promessas e notas, nada entendendo do feminino. Ainda continuo nisso, passados esses anos todos; contudo, por escopo, digo ser contínuo aprendiz do sorriso dela. Esse esboço é sempre uma originalidade para mim. Ela riu-se disso, dando lição inédita mais uma vez, no que eu poetizei o comichão, arriscando uma letra na canção: a cada quadro seu, o que faço eu é aprender para não ser repetição; detalhe seu que fica no coração que mansa.

Que se encanta...

E assim, ao ritmo de nossa dança íntima, caminhamos para a obra A Persistência da Memória, de Salvador Dalí. Aqueles relógios se derretendo, ao deserto árido vendo, eram assistidos por dois amigos que se debatiam. O primeiro dizia que Dalí notou o tempo desperdiçado, fragmentado, algo que se vai como água pelas mãos — interpretação fresca que teve agora, anos depois de sua primeira visitação, após muito viver perdas próximas ao que guardava. Contudo, o segundo foi catedrático, de modo algum errático; ao seu juízo, ao menos, disse que a fala do amigo não merecia abrigo. As nuances de Dalí seriam as mesmas, tanto no momento da realização da obra quanto naquelas que ambos os amigos aprenderam nos bancos da escola. A percepção do segundo companheiro tinha morada na curadoria do ensino do passado. A do primeiro veio por aquilo que não havia ficado.

A Menina sentiu, e uma lágrima veio no que a levei para o meu abraço e o próximo quadro: O Retorno do Filho Pródigo, de Rembrandt. Ficamos no afã e na angústia, no claro e obscuro da tela, por sentir no óleo a redenção.

O perdão decorado.

Um homem solitário via a pintura, e por dentro havia de ter uma alvura, pelo banho da alma que recebia por suas águas íntimas. Ele chorava e nós assistíamos. A Menina se compadeceu, aproximou-se e ofereceu um ouvido para escutar. Aquele homem ficou a admirar a conduta dela, confidenciou sem menos espera, dizendo que anos atrás visitou o museu e Rembrandt na companhia de seu pai, devoto da arte, segundo dizia. Suspirou ele de saudade e da vontade de no tempo voltar e compreender o que apenas depois entendeu sozinho. O momento de pai e filho diante do quadro era amor compartilhado. Devocionado e pelo filho jamais degustado na companhia dele — paladar que aprendeu depois.

Depois que ele se foi, como disse em sua tempestade.

Abençoamos essa parte e dizemos a ele que os pais entendem o que não se vê, arte sagrada contida na obra. O homem foi embora. E a Menina me conduziu ao último cenário. Perto dela eu perco o compasso.

Já estávamos próximos de deixar o museu e ela me levou ao Beijo, a representação do desejo, por Gustav Klimt. Ficou a Menina a colecionar todas as formas de toque de pétalas que tivemos, cada um deles irrepetível, como desnudou em seu segredo. Eu amei o efeito dela elaborar todo o arco narrativo do namoro, permanência da novidade, vontade que tenho de ela não mais esquecer. Afrouxei a peia, virilidade em preto e branco descartada, e elaborei aquela que a fez feliz, arte de meu mais puro devaneio. No museu há de sempre haver memória, todas elas descobertas a cada visita, inteiras de desassossego. Por esse veio é como na vida: há fotografias revisitadas continuamente e espantadas de novo, mostrando pra gente que sempre existe algo que é visto pouco.

Mesmo que sendo visto de novo.


A Way of Life (from "The Last Samurai") \\ Hans Zimmer \\ Jacob's Piano - trilha sonora de Um dia no Museu.

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